A juventude é detalhe pra quem ajuda sem cobrar

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Este texto eu escrevi quando estava no 2º semestre de jornalismo, em 2009/1. Minha escrita mudou muito de lá para cá (graças à Deus!). Resolvi postá-lo para poder acompanhar o meu desenvolvimento ao longo dos semestres. 

Banners que Ana distribui para alertar a população sobre os problemas de saúde que atingem a região

“Os anos se passam e com ele a juventude. Quem disse tamanha tolice? A juventude continua em quem quer continuar a vida a velhice é para quem suplica a mesmice. Quem quer o bem do mundo não envelhece, apenas muda de aparência, cria mais experiência. Experiência essa que na juventude declamada não se tem. Quem quer o bem do próximo não envelhece fica com menos medo de ousar.” Assim já dizia o poeta desconhecido, que defendia em alguns versos que a finalidade do homem não é envelhecer e sim ajudar quem precisa dele. Quem se pode dizer que vive com esse verso em sua mente e a podóloga Ana Maia, que divide seu tempo entre a família, o emprego e a ajuda solidária, já que ajudou com que vários projetos voluntários saíssem do papel. Hoje ela faz parte da ONG (organização não governamental) Enfermagem, que tem como slogan Onde a Saúde Começa organização sem fins lucrativos que desenvolve trabalhos sobre a saúde da família junto a comunidades, igrejas e demais instituições sociais, tendo como objetivo informar de forma gratuita sobre questões de âmbito da saúde. Ela e o presidente da ONG o enfermeiro Claudir Lopes da Silva pretendem até o final deste mês de junho implantar o Projeto Sopa, na comunidade onde ela vive.

Ana Maia mora em uma casa de dois andares, na Lomba do Pinheiro, zona leste de Porto Alegre. Ela pretende instalar em sua casa o projeto, já que na última reforma que fez em sua casa, deixou no 1 piso da casa somente a cozinha e uma salinha que atende seus pacientes. Na parte superior da casa há um quarto e uma sala de estar. Ela diz que “Ajudo quem não pode quem não tem. Dizem quem ajuda os outros em geral não pode ajudar a si mesmos. Eu ajudo os outros e não posso ajudar aquele ali do fundo (se referindo ao filho mais novo que mora nos fundos de sua casa) que só pensa em dinheiro e não entende o por que de eu ajudar as pessoas.”

Ana é casada, mãe de dois filhos já adultos e avó de um casal de seis anos, filhos do seu filho mais velho que mora hoje em Esteio com sua mulher. Fala dos netos com o mesmo orgulho que fala dos seus projetos dentro da ONG, em que dá palestras sobre as mais diversas doenças em principal a hanseníase. Ela mostra um jornal, em forma de folheto que explica sobre o projeto, e onde tem uma foto sua dando uma palestra sobre a Hepatite C.

Foram longas as conversas que tivemos, pode-se analisar que quando fica nervosa gagueja ao falar. Enquanto conversávamos veio à tona as mais diversas histórias como a de quando trabalhou durante um ano à noite na cozinha de um hipermercado bastante conhecido na região. Como trabalhava a noite, Ana soltava perto das 5 horas da manhã. Tinha que caminhar um pouco até a parada de ônibus. “Tinha medo de ser assaltada, isso devia ser por volta do ano de 96. Havia m mendigo que dormia perto do mercado e ele me levava todos os dias até a parada e esperava comigo o ônibus. Eu sempre levava para ele a comida que sobrava do mercado e ia fora, só sei te dizer que no final de um ano eu tinha cinco mendigos me levando até a parada.” Ao contar o fato ela ri e diz que quem assalta não é mendigo, mas sim os malandros que querem comprar droga e não tem dinheiro. “Mendigo come o que derem para ele ou o que ele achar, se der dinheiro ele não vai comprar comida e sim bebida, outra coisa, já percebeu que cachorro de mendigo é sempre gordinho? .” Eu apenas ri do comentário. Não sei nem como a conversa foi parar neste rumo. Ela convidará a minha mãe para participar com ela do Projeto Sopa em que minha mãe aceitou o convite. A conversa fluirá bem até que ela resolveu entrar na sua casa. A Flor, a cadelinha de Ana estava aos berros, ou melhor, aos uivos ao perceber que a dona não lhe dava atenção. Ao voltar para a rua Ana já estava com a cadelinha, na colerinha. A Florzinha como chamamos estava de vestidinho e pronta para sair. Ana conta que a carrega por tudo que é lugar dentro de uma bolsa, e quando isso não acontece a Flor quase morre chorando.

“Um dia desses indo pra Novo Hamburgo (onde tem um apartamento) Flor que estava dentro da bolsa resolveu colocar a cabecinha para fora e olhar para a janela do ônibus. Ela avistou um cachorro que estava na rua e começou a latir. Quando o cobrador me olhou escondi a Florzinha e disse que era meu telefone” Telefone! É certo que o cobrador não acreditou muito na história, mas ela passou bem.

Falando do Projeto da Sopa ela falou que nada estava ainda muito definido, mas que já podia adiantar que o publico que gostaria atingir é das pessoas que sofrem de Hanseníase, doença que atinge boa parte da população onde vive. Ela inclusive foi a primeira voluntária da Lomba do Pinheiro (e atualmente a única) que trata da hanseníase, que segundo estudos atinge muito a população daquele bairro, já que é uma doença transmitida pelo ar. Ana Maia ainda salienta que as pessoas que têm a doença não só devem procurar o atendimento médico o mais rápido possível, como também tomar a medicação corretamente, já que a doença quando tratada tem cura, além de não deixar marcas profundas na pele. “Quando não é bem tratada a hanseníase não só pode deixar a pessoa cega, mas também pode em alguns casos levar a pessoa portadora da doença a morte”. Ela fala com entonação do projeto que realiza, dando palestras nos mais diversos lugares, inclusive em ônibus, onde distribui panfletos explicativos sobre a doença. Quando isso acontece o engraçado é que de inicio as pessoas acham que é mais uma pessoa que vai distribuir papel dentro do coletivo, mas quando ela começa a falar da doença e os passageiros se dão conta e logo ficam interessados sendo que alguns chegam até fazer perguntas. O mais engraçado é que as pessoas olham diretamente para as janelas do ônibus e disfarçadamente olham para a pessoa que está ao seu lado, simultaneamente olham para as suas próprias mãos e antebraços.

Ainda sobre o projeto atual ela mostra um porta retrato com fotos suas no próprio consultório que trabalha como podóloga e quando estava fazendo trabalho voluntario no parque Farroupilha, também conhecido como Redenção, no dia da mulher. A sua casa de inicio é bem acolhedora, mesmo que na parte inferior não haja muita coisa. Em frente à porta de entrada há um aquário e fotos dos filhos e dos netos. Na sala do mesmo andar a cartazes fixados nas paredes todos voltados a saúde. Há também vários pezinhos desenhados pela casa.

Ana falou que se interessou em fazer trabalho voluntário, pois assim achou que seria uma forma de pagar as pessoas que a ajudaram na infância e mal a conheciam. Ela relata que a mãe ficou viúva cedo e tinha sete filhos pequenos para criar, as pessoas nunca negaram ajuda mesmo sem conhece – lá direito. Ela lembra que seu primeiro trabalho voluntário foi a mais ou menos 22 anos, onde ajudou a construir uma creche. “Isso foi logo quando me mudei aqui para o Pinheiro, queríamos uma creche e conquistamos uma escola infantil que hoje e referencia no município” .

Essa conquista foi importante não somente para ela, mas para toda a comunidade que hoje cresce e prospera cada dia mais. Quando Ana Maia foi morar na Lomba do Pinheiro a região era pobre e sem condições nenhuma de vida, não tinha saneamento básico e água e luz eram coisas escassas. A localidade crescera muito ao longo desses anos e de certa forma a história de vida desta mulher está ligada à historia do bairro. Não é para qualquer um dividir o tempo entre família, trabalho e bem estar, mas para quem tem a juventude dentro do coração e ama o que faz o tempo não só existe como é infinito.

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